A dívida bruta do governo federal brasileiro superou 90% do PIB em 2025, consolidando o país entre as economias emergentes com maior endividamento relativo. O debate sobre a sustentabilidade fiscal ganhou nova urgência — e nova complexidade — com a aprovação do arcabouço fiscal em 2023 e os desafios de sua implementação nos anos seguintes.
Este estudo apresenta três cenários para a trajetória da dívida pública entre 2027 e 2030, baseados em diferentes combinações de crescimento do PIB, taxa de juros real e resultado primário.
Utilizamos a equação dinâmica da dívida pública, que relaciona a variação do endividamento ao diferencial entre taxa de juros real e crescimento do PIB (o chamado "efeito bola de neve") e ao resultado primário. Os parâmetros foram calibrados com base em dados históricos do Tesouro Nacional e projeções do mercado (Focus/BCB).
No cenário base — crescimento de 2,2% ao ano, Selic convergindo para 10,5% e resultado primário equilibrado a partir de 2027 — a dívida bruta se estabiliza em torno de 92% do PIB até 2030. Não há trajetória de queda expressiva, mas também não há deterioração acelerada.
A estabilização da dívida, nesse cenário, depende criticamente do cumprimento das metas fiscais. Um desvio de 0,5 ponto percentual do PIB no resultado primário por dois anos consecutivos seria suficiente para colocar a dívida em trajetória ascendente.
No cenário adverso — crescimento de 1,5%, Selic persistindo acima de 12% e déficit primário de 0,5% do PIB — a dívida alcança 98% do PIB em 2030. Esse cenário, embora não seja o mais provável, não pode ser descartado dado o histórico de dificuldades de consolidação fiscal no Brasil.
A trajetória da dívida pública tem implicações diretas para o prêmio de risco dos títulos soberanos e, por extensão, para o custo de capital de toda a economia. Investidores em títulos de longo prazo (Tesouro IPCA+ 2035, 2040) estão implicitamente fazendo uma aposta sobre qual cenário prevalecerá.